HONRE SEUS CENTAVOS E

REESCREVA A SUA HISTÓRIA

Daniel G. P. Cunha


No Brasil, entre os anos de 1889 e 1890, estava em operação a transição do império para a república. Diversos ícones precisavam rapidamente ser substituídos para que as marcas de 67 anos de império do Brasil fossem apagadas da memória do povo. Haviam cédulas e moedas de ouro e prata no numerário daquela época, mas também haviam moedinhas de bronze: 10 réis, 20 réis e 40 réis; todas as três com o brasão imperial e o busto do imperador D. Pedro II.

 

Estas moedas de bronze representavam as menores expressões monetárias da época e estavam nas mãos do povo. A recém proclamada república, em seu levante iconoclasta, tratou de substituir não só o brasão, o hino e a bandeira, mas também tratou de substituir imediatamente as moedas de bronze do império por moedas de 20 réis e 40 réis. O busto do imperador e o brasão imperial deram lugar ao novo brasão da república e ao selo nacional; o Brasil não teria mais o brilho de uma coroa de ouro cravejada com diamantes, mas sim o brilho das estrelas da constelação do Cruzeiro do Sul. As novas moedas republicanas também começaram a passar algumas mensagens ao povo: havia nas peças de 20 réis e 40 réis as frases: "Vintém poupado, vintém ganho" e "A economia faz a prosperidade". Essas moedas estiveram nas mãos do povo em circulação desde 1890 até o ano de 1942, quando essas moedas foram retiradas de circulação pela substituição do padrão monetário Mil-Réis pelo Cruzeiro, onde a imagem do ditador Getúlio Vargas tornou-se na ocasião a nova imagem da república brasileira a ilustrar as moedas em circulação.

 

Hoje, apesar do cheque, do DOC, do TED e dos cartões de débito e crédito, ainda temos moedas metálicas em nossos bolsos para nos ajudar com as menores expressões monetárias de nossas atividades. A porção centesimal continua firme e forte a fazer parte de nosso cotidiano. Mas a cultura da poupança, seja de vinténs, tostões, cobres, pratas, trocos, contas, punhados, porções ou percentuais, parecem estar perdendo suas cores, seu significado. Não damos mais valor aos nossos centavos, desprezam-se moedas diante do caixa do mercado.

 

Acredito que não são as moedas que estão sendo ignoradas, mas sim o bom senso, a sabedoria e a matemática. Observe: Uma consumidora vai ao mercado, passa alguns legumes pela balança e um número aparece na tela do caixa em algarismos garrafais: R$ 8,77. A consumidora entrega para a operadora do caixa uma cédula de dez reais e aguarda pela nota fiscal e pelo seu troco. A operadora do caixa estende a mão e entrega a nota fiscal e a quantia - em moedas - de R$ 1,20. Pronto, encerrada a operação e todos estão felizes. Mas três centavos ficaram pelo caminho, esta rotina é o início de uma fortuna.

 

Não acredita ainda nesta sentença? A consumidora deu as costas e seguiu seu caminho. A operadora do caixa não pode subtrair dinheiro do caixa, logo, quem ficou com três centavos? O mercado.

 

Aquela operadora realizou sua operação em poucos minutos, segundos talvez. Ela trabalha naquele mercado em um turno de oito horas diárias, logo, se cada consumidor tomasse cinco minutos de seu tempo, ela poderia atender a noventa e seis pessoas por dia de trabalho. Se sessenta por cento desses atendimentos fossem realizados com dinheiro como forma de pagamento, potencialmente haverá uma misteriosa “sobra de caixa” no final do dia de R$ 1,73 através do somatório de porções de três centavos deixados para trás. Quer que eu continue? Satisfeito?

 

Trate de arrumar um bom pote e comece a juntar as moedas que passam pelas suas mãos com mais atenção e cuidado. Comece a poupar e a aplicar com sabedoria os seus recursos. Comece a honrar os centavos ao seu redor, os centavos de real, assim outros múltiplos ganharão significado e irão se tornar mais familiares aos seus projetos de vida, como dezenas de reais, centenas de reais, milhares ou até milhões de reais. Busque a sabedoria, faça uso da matemática e liberte-se dos preconceitos que te prendem ao automatismo dos paradigmas que estão minando suas energias diariamente.

 

Comece a compreender outras “estruturas e esquemas” que utilizam o expediente de pequenas quantias. Por exemplo: aquelas taxinhas que os bancos cobram a cada operação realizada em sua conta corrente por você utilizar seu próprio dinheiro, de cada correntista dentre centenas de correntistas de uma única agência, dentre centenas de agências de um único banco entre dezenas de outros bancos... procure aprender mais sobre a progressão geométrica e sobre o crescimentos exponencial, pratique o exercício de aplicar alguns centavos em uma estrutura de acumulação exponencial e observe números que tendem ao infinito.

 

Vou encerrar este pequeno texto com a lenda da origem do jogo de xadrez. São as sementes que lançarei em sua vida para que você comece a observar o mundo ao seu redor com menos ingenuidade a partir destas pequenas informações e alertas que compõe o Rodapé da Conjuntura.

 

O xadrez é um jogo de tabuleiro muito antigo, cuja origem não se sabe ao certo. Apesar de sua origem bastante controversa a lenda mais famosa é de que teria sido inventado por um sábio hindu para alegrar um rei que havia perdido um filho numa batalha. Um belo dia, um dos súditos da corte, preocupado com a saúde emocional do rei, contou ao rei que havia um plebeu do reino que inventou um jogo muito divertido. Logo, o rei convidou o plebeu para que este demonstrasse seu jogo.

 

O plebeu, simples e humilde, foi ao suntuoso palácio e apresentou-se perante o rei com um tabuleiro de madeira dividido em 64 quadrados ou “casas”, tendo 8 casas de largura por 8 casas de comprimento e mais 32 peças esculpidas artesanalmente. Distribuiu sobre o tabuleiro cada uma das peças: soldados, torres, cavalos, bispos, rainha e rei; mostrando a movimentação de cada peça, as regras do jogo e começou a explicar que o objetivo do jogo era a conquista do território do adversário.

 

O rei ficou encantado com o jogo e quis logo mostrar sua satisfação ao plebeu; desejando recompensá-lo perguntou: “O que você quer ganhar como prêmio pela criação deste jogo?” O plebeu, com sua timidez, respondeu: “Se vossa majestade quer mesmo me premiar, tudo o que posso pedir é que deposite 1 grão de arroz na primeira casa do tabuleiro, dois grãos de arroz na segunda casa, quatro grãos na terceira casa, dobrando assim a quantidade de grãos de arroz a cada casa até chegar à ultima das 64 casas do tabuleiro. Depois é só juntar tudo e me presentear com esses grãos de arroz”.

 

O rei, imaginando que o plebeu pediria um prêmio em dinheiro já estava levantando o braço para chamar o tesoureiro real para separar algumas moedas de ouro ou outra peça de muito valor, surpreendeu-se com a simplicidade do pedido do plebeu e imaginou um saco com alguns punhados de arroz. O rei, olhando rapidamente para os quadradinhos daquele pequeno tabuleiro de madeira, ainda com o desejo de dar um prêmio valioso ao plebeu, retrucou: “Mas você só deseja ganhar algumas porções de arroz? Pode escolher o que você quiser, conforme a minha palavra”.

 

Humildemente, o plebeu apenas respondeu ao rei: “Majestade, grande é a bondade de seu coração, mas para mim, esta quantia de arroz, calculada conforme meu pedido, é tudo o que peço”.

 

Assim, o rei chamou o tesoureiro real e ordenou que a quantia exata de grãos de arroz fosse calculada e separada para ser entregue ao plebeu.

 

O tesoureiro real contou quantas casas haviam no tabuleiro e começou a somar a quantidade de grãozinhos de arroz para “premiar” o plebeu. Meia hora depois, o tesoureiro real pediu a audiência do rei e, assustadíssimo, comunicou ao rei que seria impossível entregar todo o arroz ao plebeu, pois ainda que houvesse grãos suficientes em todo o reino, não haveria como transportá-los e, se fosse possível arrumar transporte, não haveria como armazenar todos os grãos.

 

Cheque-mate.

 

O rei não conhecia o poder do crescimento exponencial e teve que voltar atrás de sua própria ordem e premiar o humilde plebeu com muitas outras riquezas e honrarias que pudessem ser pagas com a “disponibilidade do tesouro”.

 

Ainda não acredita na história? Observe a tabela que o tesoureiro real rabiscou naquele dia:

 

CASA

GRÃOS DE ARROZ

 

CASA

GRÃOS DE ARROZ

 

1

1

 

33

4.294.967.296

 

2

2

 

34

8.589.934.592

 

3

4

 

35

17.179.869.184

 

4

8

 

36

34.359.738.368

 

5

16

 

37

68.719.476.736

 

6

32

 

38

137.438.953.472

 

7

64

 

39

274.877.906.944

 

8

128

 

40

549.755.813.888

 

9

256

 

41

1.099.511.627.776

 

10

512

 

42

2.199.023.255.552

 

11

1.024

 

43

4.398.046.511.104

 

12

2.048

 

44

8.796.093.022.208

 

13

4.096

 

45

17.592.186.044.416

 

14

8.192

 

46

35.184.372.088.832

 

15

16.384

 

47

70.368.744.177.664

 

16

32.768

 

48

140.737.488.355.328

 

17

65.536

 

49

281.474.976.710.656

 

18

131.072

 

50

562.949.953.421.312

 

19

262.144

 

51

1.125.899.906.842.620

 

20

524.288

 

52

2.251.799.813.685.250

 

21

1.048.576

 

53

4.503.599.627.370.500

 

22

2.097.152

 

54

9.007.199.254.740.990

 

23

4.194.304

 

55

18.014.398.509.482.000

 

24

8.388.608

 

56

36.028.797.018.964.000

 

25

16.777.216

 

57

72.057.594.037.927.900

 

26

33.554.432

 

58

144.115.188.075.856.000

 

27

67.108.864

 

59

288.230.376.151.712.000

 

28

134.217.728

 

60

576.460.752.303.423.000

 

29

268.435.456

 

61

1.152.921.504.606.850.000

 

30

536.870.912

 

62

2.305.843.009.213.690.000

 

31

1.073.741.824

 

63

4.611.686.018.427.390.000

 

32

2.147.483.648

 

64

9.223.372.036.854.780.000

 

 

 

 

 

 

 

 

Somadas as quantias de cada uma das casas, teremos 18.446.744.073.709.600.000 grãos de arroz! Se a massa de um único grão de arroz for de 0,5 grama, acredito que 307 bilhões de carretas carregadas cada uma com 30 toneladas de arroz deverão alimentar a China e a Índia durante algum tempo...

 

Você já descobriu que de uma casa para a outra, a “taxa de crescimento” da quantidade de grãos era de 100%, logo, depois de depositar o primeiro grão na primeira casa, teremos dois grãos na segunda casa, quatro grãos na terceira casa e assim por diante. Não há limites para o crescimento exponencial! Uma série longa com um multiplicador positivo maior do que 1 pode elevar uma base unitária para valores muito elevados, tendendo ao infinito, positivamente ou negativamente.

 

Funcionou com arroz. Será que funciona com dinheiro? Honre seus centavos, pare de desperdiçar o seu dinheiro pelos balcões do mercado e comece a reescrever a sua história!


E-mail: contato.o.caixa@gmail.com

 


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