Perspectivas de Reestruturação

da Petroquímica Brasileira

15 de maio de 2001

Carlos Alberto Rodrigues*


A indústria petroquímica brasileira tem suas origens no governo militar, mais precisamente na década de 1970, quando foram construídos no país o Pólo Petroquímico de São Paulo em 1972, posteriormente o Pólo de Camaçari (BA) em 1978 e logo em seguida, já na década de 80, foi construído o Pólo de Triunfo (RS) em 1982.

A primeira fase da consolidação deste setor foi marcada pelo sistema “tripartite” que se consolidou efetivamente na central de matérias-primas Copene. Neste sistema cada empresa teria 1/3 do capital em mãos da iniciativa privada nacional, 1/3 com a estatal Petroquisa e 1/3 com uma empresa privada estrangeira, que normalmente tinha o know-how  tecnológico.

Entretanto, em função dos problemas com a expansão do endividamento externo do Brasil e dos problemas relativos a escassez de crédito no sistema financeiro internacional, o sistema tripartite a partir da década de 1980 já dava os primeiros sinais de esgotamento, e na década de 1990, com a inclusão das empresas do sistema Petroquisa no Programa Nacional de Desestatização do governo Collor, somente na Petroquímica União (PQU), Copene e Copesul ainda havia participações da Petroquisa, embora modestas, oscilando entre 15 a 18% do capital votante dessas empresas.

Atualmente as três centrais de matérias-primas petroquímicas brasileiras, juntas, têm capacidade de produção de 2,9 milhões de toneladas anuais de eteno (etileno), seu principal produto. É uma indústria que opera com elevadas economias de escala e as novas plantas possuem cada vez maiores capacidades de produção, sendo projetadas para acompanhar a ciclicalidade típica da demanda deste setor, a qual sofre fortes influências da conjuntura macroeconômica interna e externa.

No Brasil a indústria petroquímica caracteriza-se como um oligopólio altamente concentrado e de baixa integração vertical em sua cadeia produtiva. Em contraste podemos citar os EUA, país cuja indústria petroquímica utiliza cerca de 82% do eteno produzido no interior das próprias unidades produtoras. Atualmente no Brasil este percentual é nulo. Além disso, no Brasil a indústria petroquímica apresenta elevada concentração geográfica das indústrias de segunda geração, em função principalmente das dificuldades técnicas e do alto custo de transporte de seus produtos, resultando na dificuldade de se trocar fornecedores ou consumidores.

O setor petroquímico brasileiro, a partir do ano 2000, passou a enfrentar sérios problemas com a eliminação dos subsídios à nafta, seu principal insumo, cujo único fornecedor é a Petrobrás. Uma vez que 83% dos custos variáveis provêm da matéria-prima, o setor teve seus custos elevados, fato que prejudicou inclusive o faturamento das empresas que produzem os chamados produtos de segunda geração, os quais podem ser importados pelas empresas que os utilizam, como é o caso do polietileno de baixa densidade (PEBD), polietileno de baixa densidade linear (PEBDL), polietileno de alta densidade (PEAD) e o polipropileno.

Apesar do eteno poder ser produzido a partir do etano, derivado do gás natural, a nafta tem sido a matéria-prima mais utilizada em nível mundial, pois apesar de seu processo produtivo ser mais complexo, seus custos elevados são compensados na maior parte pelos créditos obtidos com a venda dos subprodutos gerados no processo produtivo, alguns de alto valor agregado como o propeno. Ver tabela 1.

Tabela 1 - Critérios e Dados para Cálculo do Custo de Produção de Eteno a partir de Nafta

Itens de Custo

Índice Técnico

Preço

Custo

 

(Um./t. de eteno)

(US$/un.)

(US$/t. de eteno)

Matéria-Prima

 

 

 

Nafta (t)

3,3

295,00

973,50

Utilidades

 

 

90,90

Eletricidade (KWh)

114,8

0,04

4,59

Água de Resfriamento (m3)

404,1

0,04

16,16

Água de Processo (m3)

3

0,80

2,40

Combustíveis

28,2267

2,40

67,74

Subprodutos

 

 

627,10

Propeno (t)

0,5

400,00

200,00

Hidrogênio (t)

0,0162

800,00

12,96

Gás Combustível

20,79883

2,40

49,92

Butadieno (t)

0,129

400,00

51,60

GLP (t)

0,29

220,00

63,80

Benzeno (t)

0,178

350,00

62,30

Gasolina de Pirólise (t)

0,778

220,00

171,16

Óleo Combustível (t)

0,128

120,00

15,36

Custo Fixo Desembolsável (US$)

 

 

 

(Base: US$ 0,021/lb de Eteno)

 

 

46,00

Custo de Depreciação (15 anos)

 

 

60,60

Custo Total

 

 

543,90

Custo Total Sem Matéria-Prima

 

 

-429,60

Fonte: BNDES Setorial. Rio de Janeiro. n.12, p.156. 09/2000.

A estrutura patrimonial da indústria petroquímica brasileira sofreu com a saída da Petroquisa do setor. As empresas passaram a enfrentar os preços de mercado da nafta e ainda perderam o sócio responsável pelos grandes investimentos. Após a abertura econômica e o início do processo de transformação de sua estrutura patrimonial, vieram as incertezas que implicaram na baixa propensão a investir deste setor. A atual cadeia petroquímica nacional não apresenta praticamente nenhuma das características do setor em nível internacional, tais como: escalas produtivas elevadas, facilidade de acesso aos insumos e a mercados amplos, situação patrimonial e financeira equilibrada, etc., fazendo com que as empresas do setor tenham dificuldades em atingir posições elevadas de competitividade interna e externa. (DEMARTINI, T.M. Projeto de Iniciação Científica (FAPESP). Unesp, FCLAr, 2000. p.1-7.).

A indústria petroquímica mundial está passando por um profundo processo de reestruturação e busca cada vez mais se internacionalizar, mediante alianças estratégicas, aquisições, fusões e incorporações, tornando a competição cada vez mais acirrada. Em termos globais, o desenvolvimento das empresas do setor resultou num grande dinamismo tecnológico e na sua expansão e, atualmente este setor conta com empresas de elevado faturamento e produção diversificada.

É nesse contexto que a indústria petroquímica brasileira vem tentando acompanhar as mudanças resultantes do processo de globalização, procurando superar as deficiências herdadas desde suas origens, em termos de dimensões econômicas e integração patrimonial.

Na indústria química mundial, como podemos verificar na Tabela 2, as empresas são relativamente muito grandes e a indústria petroquímica, mesmo pequena, representa um volume de participação elevado se comparado ao dos principais concorrentes mais especializados.

Tabela 2 - Empresas Químicas e Petroquímicas

Empresa

Faturamento

Particip. (%)

Data de fundação

 

(US$ milhões)-1998

da química ou

da empresa

 

 

petroquímica

 

Shell

138.274

10

1890

Exxon Mobil

100.700

9

1870/1911

Bayer

27.238

47

1863

Basf

26.831

90

1865

Hoescht

26.230

29

1863

Du Pont

24.767

64

1802

Dow Chemical

18.441

75

1897

Rhône-Poulenc

14.900

42

1858

Solvay

7.664

84

1858

Union Carbide

6.873

100

Fim do séc. XIX

Fonte: Folha de São Paulo, 29/06/2000. p.B3.

Já na indústria petroquímica brasileira encontramos, ao contrário, grandes plantas monoprodutoras, pouco integradas verticalmente e com baixo grau de investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D), prejudicando seu crescimento e implicando em desvantagens competitivas ao diferenciar-se de suas concorrentes internacionais não apenas em tamanho, mas também pela grande diversificação e dispersão de suas atividades, conforme veremos na Tabela 3.

Tabela 3 - Características Gerais dos Principais Grupos Brasileiros com Atividades na Indústria Petroquímica

 

Faturamento (1998)

Particip. (%)

Atividade

 

(R$ milhões)

Petroquímica

Principal

Ipiranga

6.165

12

Distr. de Petróleo

Odebrecht

4.868

42

Construção Civil

Suzano

1.393

23

Papel e Celulose

Ultra

1.043

38

Distr. de gás

Unipar

444

n.d

Petroquímica

Mariani

395

n.d

Diversificado

Fonte: Folha de São Paulo, 29/06/2000. p.B3.

Segundo relatório do Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio, além dos aspectos sistêmicos que ainda inibem as condições de competitividade, há outros problemas e restrições do setor que devem ser destacados como: política tarifária favorável às importações de maior valor agregado e desfavorável aos investimentos na produção de nafta e óleo combustível; elevação do déficit comercial do setor; redução do efetivo altamente qualificado; baixo investimento em tecnologia de ponta; reduzido porte econômico das empresas; modelo monoprodutor inadequado a um mercado globalizado; maiores custos de investimento para produtores internos; falta de integração vertical para fabricação de produtos de maior valor agregado (http://www.mdic.gov.br. Química Diagnóstico. p.13.).

 Todos estes fatores atuando em conjunto impedem a expansão do setor e deprimem o ganho de eficiência na cadeia produtiva, tornando o setor petroquímico brasileiro pouco competitivo. A reduzida escala empresarial inibe a capacidade de investir em P&D, minimiza o faturamento e limita a capacidade de financiamento das empresas (RODRIGUES, D.A. Revista do BNDES. 06/2000. v.7, n.13, p.123).

Entretanto, no final de 1999 os principais controladores da Copene anunciaram interesse em vender sua parte na Companhia, sinalizando para uma forte reestruturação no setor petroquímico brasileiro, envolvendo os 3 pólos petroquímicos brasileiros, tendo em vista o acirramento da concorrência intra-setorial. O grupo Ultra, de São Paulo, passou a ser o preferido do governo federal para arrematar a Copene, uma vez que o governo já sinalizou que não pretende desnacionalizar o setor e que ainda deseja que cada um dos três pólos tenha um dono diferente, o que estimularia a concorrência e evitaria a formação de monopólios na distribuição de matérias-primas essenciais como o eteno. Além do mais, à época, o Grupo Ultra teria sido o único a apresentar um projeto para a Copene nos moldes estabelecidos pelo BNDES.

A estratégia governamental repousa essencialmente na questão das exportações, pois os técnicos da União entendem que se uma empresa estrangeira de peso como a Dow Chemical arrematar a Copene em leilão, ela teria uma atuação específica para o atendimento do mercado interno em função de acordos de mercado com suas subsidiárias, ao passo que as empresas nacionais estariam ávidas pelo mercado externo, o que elevaria as exportações e melhoraria a situação da Balança Comercial brasileira. A Copene é atualmente a maior central de matérias-primas da indústria petroquímica brasileira e responde por 40% da produção do setor.

Entretanto, com a desistência da Dow Chemical e com o fracasso dos leilões realizados para a venda da Copene, cujo valor mínimo de R$ 1,366 bilhão não foi alcançado, um novo cenário parece estar se desenhando no setor. Há uma grande possibilidade de vitória do consórcio Odebrecht-Mariani no leilão de venda do controle acionário da Norquisa, holding da Copene, marcado para 12 de junho deste ano. Caso este negócio se concretize, a Odebrecht se consolidará como a líder da petroquímica na América Latina e um importante participante global. A Odebrecht, que já divide com a Ipiranga o controle da Copesul poderá ser a dona de uma produção total de 2,3 milhões de toneladas anuais de eteno, ou seja, 79% de toda a produção. O mercado avalia que uma associação deste porte implicaria num faturamento total de R$ 8 bilhões. Podemos inferir que a intenção da Odebrecht, caso vença a disputa pelos ativos de Camaçari, é consolidar sua posição no mercado global, principalmente diante da previsão cada vez mais iminente da entrada do Brasil, a partir de 2006, na Área de Livre Comércio das Américas (Alca).

Segundo Simone Goldberg, da Gazeta Mercantil, uma vez no comando da Copene, este consórcio provavelmente fará a integração de suas empresas de segunda geração, como a OPP e a Trikem com a central de matérias-primas, formando o que os analistas já chamam de Copenão, que economizaria por ano cerca de US$ 100 milhões em impostos e despesas administrativas. Já o Grupo Ultra, que ainda não está fora do páreo, caso seja vitorioso, pretende integrar sua Oxiteno, fabricante de óxido de eteno, com a central, fornecedora de sua principal matéria-prima, o eteno. Segundo a analista, outra vantagem para o consórcio Odebrecht-Mariani seria em relação ao poder de barganha que obteriam junto à Petrobrás nas negociações com a nafta, e como a Odebrecht já participa também da Copesul, certamente ela poderia forçar a negociação a seu favor.

Segundo analistas do próprio BNDES, os planos de expansão e reestruturação da petroquímica brasileira podem constituir uma ótima oportunidade para se iniciar a correção de suas deficiências estruturais já apontadas, implicando no suprimento da demanda de sua principal matéria-prima, o eteno, cujo crescimento projetado da demanda até 2005 supera os 7% aa. Nesse sentido, o BNDES poderia contribuir muito, principalmente financiando projetos de investimento que tenham por meta atender critérios de competitividade global, com ênfase para o aumento do porte das empresas e para o estabelecimento de uma estratégia tecnológica, modificando a estrutura da indústria.

Entretanto, uma vitória da sociedade Odebrecht-Mariani no leilão de junho obrigará o BNDES a repensar sua estratégia para o setor, pois sua idéia inicial era que a Odebrecht saísse de Camaçari e se fortalecesse no Sul, no pólo de Triunfo. Com o apoio explícito do banco ao Grupo Ultra na Bahia, estaria definida a estratégia do governo para os ativos petroquímicos do Nordeste, mas se a Odebrecht vencer na Bahia todo este cenário traçado pelo BNDES será desmontado. No entanto, independente de como ficar o cenário do setor petroquímico após a reestruturação da Copene, uma coisa é tida como certa: tanto a Odebrecht como o Ultra têm estratégias claras para o setor petroquímico brasileiro, que passam por reestruturação patrimonial, maior integração vertical das plantas, maior diversificação de produtos, e principalmente, ganhos de eficiência com as economias de escala. Portanto, com um projeto de reestruturação patrimonial, econômica e técnica bem elaborado no setor petroquímico, o Brasil só tem a ganhar, uma vez que num mercado em oligopólio altamente concentrado, num cenário internacional cada vez mais globalizado, adquirir competitividade deve ser o principal objetivo das empresas do setor.

Nota Explicativa do Autor: Chamo a atenção do leitor para o último item da Tabela 1 em que é possível verificar custo negativo para a produção de eteno a partir da nafta. O leitor pode estar se perguntando: ... como isso é possível ? É muito simples: - no processo de produção de eteno a partir da nafta como matéria-prima temos um custo relativamente alto com o principal insumo que é a nafta. Os demais componentes do custo total como os custos operacionais (utilidades), o custo fixo e o custo de depreciação do capital são muito semelhantes tanto para a produção a partir da nafta como para a produção a partir do etano (derivado do gás natural). A diferença essencial está justamente nos subprodutos gerados no processo produtivo. A nafta, que é um derivado do petróleo, gera subprodutos importantes e de alto valor agregado como o propeno, o butadieno e o benzeno, além de outros derivados relevantes, porém em menor quantidade. Ao final do processo, extraído o custo com a aquisição da nafta, a central produtora de eteno obtém ainda uma receita adicional de US$ 429,60 / ton. de eteno produzido. Portanto, mesmo com o preço da nafta sendo superior ao preço do etano, as centrais petroquímicas ainda preferem a primeira em função dos ganhos efetivos com a venda dos muitos subprodutos gerados em seu processo produtivo, implicando exatamente no custo total negativo da Tabela 1.

*Economista

rodcarlosalb@yahoo.com.br


 Artigos

 Índice